A rã
Uma história sobre medos a superar
Meus pequenos pés encontraram a madeira fria. Ainda era cedo demais. Minhas meias brancas com girassóis não conseguiam proteger minha pele. Entrei na sala-cozinha da casa na ponta dos dedos. Minha mãe e minha tia estavam sentadas em frente ao fogão à lenha, posicionadas como quem espera alguém importante. Quando me viu, minha mãe me mandou de volta pro quarto para colocar um calçado mais quente. Escutei a água quase fervendo, vi as duas mulheres se mexendo como em uma coreografia conhecida: minha mãe segurava a cuia de mate em uma mão; minha tia despejava a água da chaleira na erva.
Eu já havia tomado duas ou três cuias de mate com leite, quando Natália apareceu desnorteada na sala-cozinha. “Vai colocar um sapato quente antes de tomar café”, mandou minha mãe com carinho. Minha prima não era filha da minha tia. Ela era filha de uma outra prima minha que engravidou antes da hora. Sua mãe tinha pouca paciência e preferia deixá-la com a gente durante as férias de inverno. O abandono de Natália me servia muito bem. Por um curto período de tempo, eu tinha alguém pra chamar de irmã e me acompanhar em pequenas aventuras.

Saímos da casa de madeira da minha tia com roupas de lã e ponchos pesados. Era como se minha mãe soubesse que Natália tinha outros planos do que só ficar brincando na frente da casa. Minha prima tinha algo de destemido que só uma criança com uma mãe ausente pode desenvolver. “Vamos ver o que tem lá no lago, a gente nunca foi”. Eu como a mais velha do nosso grupo de duas devia dizer que o almoço já ia ficar pronto, que estava muito frio para ir ao lago ou que era muito perigoso. Mas a sua falta de medo me hipnotizava.
O riacho era na verdade um pequeno córrego de água ao lado da pequena rua de terra. Não tinha perigo aparente. Descemos a pequena inclinação de terra escorregando. O dia estava atipicamente quente, mas mesmo assim a água gelada passava como agulhas nos nossos pequenos dedos curiosos. Natália mexia nos insetos e pequenos animais com gravetos e risadinhas. Eu fingia interesse, mas tinha a bravura de quem cresceu em um apartamento na cidade grande.
Minha prima escorregou e caiu de bunda na terra molhada. Rimos alto. Sentada no barro, ela olhou pra água a sua frente. Um pequeno ser se debatia de barriga pra cima. Os olhos Natália congelaram, suas narinas pararam de se mover por meio segundo. “A gente precisa salvar ele!”. Eu nem tentei fingir coragem. Mas já sabia que Natália por muitas vezes usava a terceira pessoa para se referir apenas a si mesma. Sem esperar por uma reação minha, sua mãozinha agarrou o pequena rã e o trouxe para perto de seu rosto. Me contorci com a cena. Pedi para que a colocasse de volta na água. “Não, a gente precisa ajudar ele!”.
No caminho de volta, a rã lutou bravamente para se libertar das enormes garras que o seguravam com tanta convicção. Talvez tenha se sentido um pouco melhor quando o colocamos em um pote velho de margarina cheio de água. “Agora ele pode nadar!” Minha prima estava entusiasmada com sua nova descoberta. Eu havia perdido minha companhia para o resto do dia.
O dia todo tentei convencer Natália de deixar a pobre ir. Eu queria brincar de outra coisa. Mas ela encarava o pote de margarina como se fosse um berço com seu filho. Suas risadas ecoavam pelo jardim quando a rã saltava para fora do pote e caia desnorteado em seu colo. Eu via o medo nos olhos daquele ser molhado ao ouvir o som daquele grande monstro de cabelos loiros e dedos finos. Um monstro que fechava o pote de margarina e sacudia para ver como a rã reagia, colocava pedaços de frutas dentro da água para ver se o bicho comia; passava o dedo em sua cabeça pequena para ver se o bicho dormia. Eu observava a tortura quase que ouvindo a respiração nervosa da rãzinha.
Minha mãe foi quem colocou um fim a tudo. Com calma e paciência convenceu Natália que seres vivos precisam de liberdade. “E ele deve estar com saudades da mãe dele.” Os olhos verdes de Natália pareceram escurecer. Não havia mais sol neles, eram agora como um lago turvo num dia nublado.
Fizemos o caminho em silêncio até a água. O pote de margarina fechado impedia que Natália encarasse seu protegido pela última vez. Segurei sua mão quando descemos juntos a terra molhada. Fizemos uma pequena oração. Natália abriu o pote de margarina e jogou a água com a rã para fora como se fosse água suja, se virou para mim e disse que queria voltar pra casa. Nos viramos de costas e começamos a subir pela terra e mato molhados. Me virei para dar uma última olhada no que havia sido minha concorrente durante o dia. O corpinho gosmento boiava de barriga pra cima dentro da água. Já não se movia.
